Pontos de Vista
21/09: Dia da luta da pessoa com deficiência
Em um dia qualquer, passa na sua televisão a história de alguém que, ao final de uma fila imensa de pessoas que ultrapassaram uma porta, encontrou um batente muito mais alto do que capaz de alcançar. O enquadramento da história, ao invés de focar na existência do obstáculo, fala sobre o heroísmo da pessoa que o superou. Você com certeza já consumiu algo que assume essa narrativa para pessoas com deficiência, seja um filme, uma matéria, um segmento em um programa rádio ou em uma postagem nas redes sociais, mas enquanto a história de superação é contada, e muitas vezes rende protagonismo para o narrador e não para a pessoa, o batente continua existindo, e o herói continua tendo que se salvar diariamente.
Com essa conjuntura, a busca pelo extraordinário é uma conveniência para quem tem o poder de contar as histórias, passando a verdadeira mensagem pelas entrelinhas “Se eu continuo contando a sua história, eu recebo tapinhas nas costas pela minha solidariedade, mas se eu te ajudo à extinguir os obstáculos, deixo de ter uma história de superação para vender”. Mas talvez exista uma consequência menos evidente nessa lógica: quando a dificuldade precisa existir para que a história seja considerada extraordinária, a própria pessoa corre o risco de desaparecer atrás dela.
A superação e volta por cima são arcos muito amados pelo público, mas quão frequentemente vemos pessoas com deficiência como sujeitos que não se resumem às suas condições e ganham o direito de serem representados com falhas, qualidades e profundidade?
Por isso, falar sobre acessibilidade é também falar sobre autonomia. Uma cidade verdadeiramente acessível não deveria depender da capacidade de seus cidadãos de improvisar caminhos alternativos. Um evento inclusivo não deveria exigir que alguém peça repetidamente por condições básicas de participação. Um ensino acessível não deveria tratar cada adaptação como uma exceção extraordinária.
Essa mudança de perspectiva aparece quando falamos sobre a mudança. Mais do que oferecer adaptações quando uma pessoa encontra uma barreira, a proposta deveria ser pensar os espaços desde o início para diferentes formas de existir. Nesse contexto, a Pontos Diversos acredita que a inclusão é fundamental na construção da realidade que deve ser conduzida pelas pessoas com deficiência para que elas criem o mundo no qual devem viver com dignidade. Para isso, parcerias, como com a Farol Acessibilidade, são essenciais para provocar mudanças coletivamente. A transformação é, sobretudo, emancipatória.
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